E se todo relacionamento for por interesse?

Relacionamentos são uma necessidade, tanto biológica quanto emocional.
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Possuímos não apenas o imperativo biológico da reprodução — que tanto nos ajudou na luta pela vida nos tempos primordiais e nos prejudicou na luta pela dignidade em festas open-bar — como também a necessidade social de interação com outros seres humanos, que fez  diferença no processo de dominação do planeta Terra e também faz a diferença quando você resolve mandar aquele whatsapp carinhoso no meio da madrugada pra uma ex-namorada (o ser humano é o único animal que manda SMS e se esquece no dia seguinte).
E o fato de que se trata de uma necessidade e não de um luxo ou de uma opção é algo que molda diretamente a maneira como lidamos com relacionamentos, por mais modernos e evoluídos que possamos ser hoje em dia.
Voltamos com ex-namorados picaretas porque temos medo de ficar sozinhos, nos envolvemos em situações constrangedoras porque sentimos necessidade de sexo, fazemos promessas absurdas porque queremos alguém em quem encostar os pés no final da noite, suportamos duas horas de discotecagem de canções do Black Eyed Peas porque não queremos ir pra casa sem ao menos beijar alguém.
Mas essa busca por proteção, companhia e contato físico, por mais cega que possa parecer em alguns instantes — “por que você está beijando esse balão e chamando de Aline, cara?” (um amigo meu, uma vez, bebeu demais e desenhou um rosto em uma bexiga) – sempre foi baseada em algum tipo de critério, por mais simples e primário que fosse, por mais primitivo e claramente animal que pudesse ser.

Na natureza selvagem

Isso porque, instintivamente, em um ambiente mais selvagem (que pode ser a pré-história ou uma balada depois da uma da manhã), o primeiro critério de seleção de um parceiro é o corpo. Homens procuram mulheres de cintura fina e quadril largo, visando reprodução, da mesma forma que mulheres procuram homens altos de costas largas e braços fortes, e isso acontece sem um processo reflexivo, por puro instinto e imperativo biológico.
É, já em uma etapa mais avançada da evolução e dos relacionamentos interpessoais, quando não estamos mais focados apenas em reprodução e entendemos que vamos precisar ao menos ter um papinho (e talvez ver um filme depois), que começamos a nos preocupar com características mais emocionais e menos físicas nos nossos relacionamentos.
Se sentir excitado com o senso de humor do parceiro? Coisa de quem não precisa mais lutar com lobos pela própria comida. Achar bonitinho o jeito como ela força a vista de vez em quando? Típico de gente que não precisa de uma parceira que vigie a caverna a noite.
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É um lance de química, de física e, bem, de biologia também

Mesmo que no processo de seleção de parceiros, as características puramente físicas tenham passado a dividir espaço com as emocionais mais modernas, os processos básicos da busca por um parceiro continuam os mesmos, tendo sido ampliado apenas o escopo de atuação desse parceiro hipotético.
Se, antes, o objetivo era apenas a reprodução pura e simples, hoje, em virtude de todas as mudanças sociais que o mundo sofreu, essa área de atuação vai muito além dos processos simulados de reprodução — em que ainda são exigidos níveis de qualidade muito acima dos praticados na antiguidade — e envolve também companheirismo pessoal, parceria financeira, metas e objetivos comuns, entre diversos outros critérios.
Mas, ainda assim, em uma análise fria, relacionamentos seguem sendo como eram nos tempos das cavernas: uma troca de interesses, ainda que a quantidade seja cada vez maior e mais complexos.
Você pode não estar mais procurando o queixo quadrado, mas você busca alguém que seja sincero, que te dê segurança, que apoie seus projetos, que seja legal com os seus pais. Você pode não estar procurando a cintura fina, mas certamente quer alguém que goste de ficar em casa, que ache graça nas suas piadas, que não se incomode com os seus action figures, que aceite se vestir de Princesa Peach na cama em datas especiais.
E cada um de nós tem, é claro, sua lista das coisas que são prioritárias num relacionamento, lista essa que inclui desde as nossas necessidades mais animais — “gosto de peitão” — até os nossos anseios mais pessoais e emocionais — “quero alguém que tenha paciência comigo porque quando eu era criança e demorava pra fazer as coisas a minha mãe me alvejava com batatas cruas”.
É exatamente pelo fato de todo relacionamento ser constituído por uma troca de elementos de interesse que eu sempre achei no mínimo engraçado quando as pessoas chamam as outras de “interesseiras”.

Defina interesse, meu amigo

Reza a lenda que eles não podem anunciar a separação por motivo de contratos publicitários. Interesseiros?
Reza a lenda que eles não podem anunciar a separação por motivo de contratos publicitários. Interesseiros?
Primeiro porque, em toda acusação de relacionamento por interesse, existe a sua dose de preconceito embutida.
Quando você vê o jogador de futebol negro com uma mulher loira e diz que aquilo é por dinheiro você está deixando implícito que mulheres loiras e bonitas não se relacionam com homens negros e pobres dentro das condições normais de temperatura e pressão do mundo dos relacionamentos.
O mesmo vale para todos os casamentos entre pessoas de idades diferentes — “ah, mas ela claramente quer matar esse velho pra pegar o dinheiro” ou “nossa, mas ele poderia ser filho dela”.
Mesmo quando não existe a presença de um dos milhões de preconceitos que a gente vê caminhando pelas ruas diariamente e a questão é meramente financeira — “ela está com ele pelo dinheiro” ou “ele está com ela pelo dinheiro” –, existe sempre a visão de que isso é errado e estar com alguém é menos digno se um dos fatores que mais pesou na sua decisão tiver sido o fator financeiro e não um dos outros fatores que a nossa sociedade se acostumou a considerar como mais adequados.
O que, bem, ao menos em termos lógicos, não faz muito sentido.

Quem vigia os vigilantes e com que critérios você avalia os critérios dos outros?

Afinal, a escolha do parceiro envolve critérios, todos eles pessoais, alguns deles eliminatórios, absolutamente nenhum deles justo.
Você não gosta de caras baixos, ele não gosta de meninas magras, eu não consigo me imaginar com uma garota que não ache IT Crowd ao menos engraçadinho. São critérios particulares, arbitrários, que nasceram basicamente das nossas vontades e necessidades e que excluem do campo das nossas possibilidades pessoas que poderiam ser ótimas para nós, mas com as quais apenas decidimos não nos relacionar, ao menos não inicialmente.
Mas, ainda assim, nunca somos reprimidos por causa disso. Ninguém vê uma notícia no Ego e comenta que aquela atriz “só pega caras gigantes” ou que aquele cara “só sai com mulheres de cabelo curto”, isso porque esses são critérios com os quais a sociedade aprendeu a lidar.
"Adoro mulher que ri depois do sexo". Interesseiro.
“Adoro mulher que ri depois do sexo”. Interesseiro.
Mesmo escolhas baseadas majoritariamente na aparência física, que remetem aos critérios mais primários de seleção de parceiros, são vistas com bons olhos pela sociedade, ainda que esse seja um critério tão ou mais injusto do que o critério financeiro (afinal, ninguém escolhe ser feio, da mesma maneira que praticamente ninguém escolhe ser pobre).

Se só existe interesse, então todo mundo é interesseiro?

Estamos defendendo os relacionamentos por interesse financeiro então?
Não necessariamente. A intenção é mais lembrar que relacionamentos são um processo que envolve tanto as necessidades biológicas da espécie quanto as necessidades pessoais de cada um de nós, tudo isso passando por um filtro que é o nosso contexto social.
Em uma relação, buscamos suprir as nossas necessidades nos mais diversos sentidos e cada um lida, tanto com essas necessidades quanto com os mecanismos para supri-las, da maneira que pode, consegue e considera adequado.
Relacionamentos calcados em segurança financeira batem com o nosso ideal romântico? Claramente não. Mas o nosso ideal romântico também é uma construção social, ao mesmo tempo que um mecanismo evolutivo.
Note o quanto de machismo existe em boa parte dos princípios de romance com que lidamos desde criança e perceba quão pouco dele é “natural” e o quanto é reflexo da sociedade em que ele se originou. Então, quem pode dizer quais critérios são os mais adequados, se biologicamente o ímpeto de prover o melhor ambiente possível para a cria faz mais sentido do que o de achar alguém que também goste deZelig?
Ou seja, sendo o ideal de romance uma construção, sendo os critérios de escolha de parceiro sempre pessoais e arbitrários, existindo o ímpeto biológico por trás até mesmo das decisões emocionais, isso, de alguma maneira invalida o papel dos sentimentos, tira o mérito das paixões, torna mais rasos os relacionamentos?
Claro que não.
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Mas saber disso nos permite compreender mais claramente quão pouco direito nós temos de julgar as decisões de qualquer pessoa ou os motivos que levam seja quem for a estar com qualquer um que quiser, já que estamos todos, num certo nível, querendo apenas o que é melhor para nós e para nossas futuras crias.
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