Amo minha namorada, mas não consigo parar de trair

"Blog SD,

Adoro sua coluna, ela já me ajudou muitas vezes e sinto que em alguns textos você já chegou a abordar coisas próximas do que vou relatar. De qualquer forma, depois de muito ler, ainda não consegui encontrar a resposta que estou procurando.

Há cerca de 1 ano, comecei a ficar com ela. Foi um tempo muito bom, eu estava apaixonado, não tivemos maiores problemas. Vale dizer que não temos problemas sexuais, transamos regularmente e é sempre bom. Eu até fiquei com uma mulher uma vez, mas sem sexo. Contei pra ela e tudo bem, ela entendeu, afinal, não tínhamos selado nenhum compromisso.

Mas depois, ela queria namorar e eu aceitei. De lá pra cá, as coisas mudaram muito pra mim. Eu, que não tinha maiores pretensões de pegar ninguém, virei um caçador. Não consigo deixar de querer transar com várias mulheres que vejo na rua ou com quem converso. Minha cabeça só pensa em sexo. E o pior: fiquei bom nisso.

Tenho dois casos regulares além da minha namorada e volta e meia acabo transando com alguém, coisa de uma noite só. Uma delas sabe que estou namorando, a outra não.

Quando estamos trocando mensagens e marcando as transas, penso o tempo inteiro na minha namorada, mas fico muito excitado, ao ponto de não conseguir resistir.

Entre escapadas e paranoias, me preocupo muito com o que minha namorada vai sentir se descobrir. Mais do que isso, eu mesmo fico muito mal todas as vezes que encontro com as outras.
Amo minha namorada, mas não consigo parar de trair. Isso está me deixando maluco por dentro. Sofro muito, de chorar às vezes, por não conseguir resistir a esse impulso. Ninguém sabe dessa minha vida alternativa, não tenho com quem desabafar.
Teria como me ajudar?

Desde já, agradeço,
K.,"
Olá K..
Esse tema é tão polêmico e antigo que corro o risco de cometer algum tipo de engano fundamental em não atingir completamente sua resposta, já que não vou restringi-la a você.

Os insaciáveis e os contidos

No que se refere aos desejos sexuais, poderíamos dividir as pessoas em dois tipos: as que alimentam os desejos de forma inadiável e as que treinam o adiamento dos desejos.
Ambos precisam lidar com uma consequência positiva e negativa, afinal, vivemos num mundo ambíguo que estimula os desejos, mas ao mesmo tempo condena sua plena realização, para preservar uma dose de convivência mínima e até imperativos biológicos ancestrais.
Na arte de gerenciar os próprios apetites, seja com ou sem adiamento, existem manobras saudáveis ou doentias. No caso saudável, ocorre uma capacidade de se saciar sem exageros. O apreço pela qualidade é suficiente para reciclar a vontade.
Existem maneiras doentias de repressão dos próprios instintos. Em geral, passam por uma castração moral irrefletida que abafa, aniquila, frustra e adoece o sujeito. Não raro os moralistas representam esse segundo grupo, que precisa de regras muito duras – sobre si e os outros – para garantir que impulsos indomáveis fiquem bem presos na gaiola.


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No outro time, dos que não se contém, existe quem saudável e filosoficamente sente que a liberação dos desejos é um ato de abertura pessoal e busca a saciabilidade sexual na diversidade de parceiros. Eles precisam se contrapor a uma cultura que se opõe radicalmente à não-monogamia, mas depois, quando encontram os seus pares ideológicos, tendem a ficar satisfeitos, ainda que lamentando não existir mais gente no mesmo barco.
Há, finalmente, aqueles que buscam a realização de seus desejos como expressão de um mal-estar interno e, na cama, como em outras esferas da vida, seguem como crianças insaciáveis, incapazes de se restringir por pura inconsciência do que desejam de fato. É como se o sexo fosse sua salvação, já que outros prazeres humanos estariam amordaçados por certa covardia. Por isso, buscam a realização compulsória de suas vontades quase como se fossem domesticados pelos seus desejos e não o contrário. Acreditam que isso é uma escolha mas, na verdade, já não sentem liberdade diante de si mesmas.

Trair é uma questão de caráter?

Na questão da fidelidade, o que ocorre é um acordo – nem sempre claro – de exclusividade sexual e/ou amorosa, restringindo os impulsos emocionais e sexuais que poderiam culminar numa traição. O grande impasse é que nos relacionamentos não há clareza sobre os motivos pelos quais a fidelidade é exigida e também não é claro o tipo de manobra a ser feita para administrar a frustração de certos desejos.
Então, K., não sei se eu poderia afirmar que trair está ligado à falta de caráter. Essa firmeza moral tem um elemento de escolha consciente mas, no caso desse último grupo, dos compulsivos (que a cultura machista entende como natural no homem), a sensação de escolha é superficial. De resto, o que rege são forças obscuras.
A compulsividade por sexo, doce, pular de pára-quedas, falar sem pensar, ou qualquer outra coisa do gênero, em muitos casos, pode ser simplesmente resultado de uma vida mal-sucedida que se anestesia em qualquer tipo de satisfação imediata. A compulsão está sempre na incapacidade efetiva para a recusa. O sujeito pode até querer não querer, mas na verdade não está habilitado para conter a si mesmo. Ou seja, precisa de treino emocional.


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Dificuldade em sacrificar os desejos

O ponto é que você se dispôs a namorar alguém que consegue adiar os seus desejos e escolheu ter pleno controle sobre como canalizá-los. Acordos são acordos, há sempre uma privação mútua, um preço a ser pago e uma dose de angústia própria da convivência humana. Há quem queira pagar e há quem não queira.
A felicidade não parece ter a ver com conquistar tudo e realizar todos os seus desejos, mas sim com conseguir escolher, entre aqueles que estão disponíveis, quais tem mais profundidade e são duradouros.
Vivemos uma geração que vê na privação pessoal uma ofensa ou um fracasso. Você promete algo que sabe de antemão que não vai entregar e, mesmo assim, segue forçando a barra. A escolha de se relacionar com mais de uma pessoa, no seu caso, pode estar relacionada a algum tipo de imperativo que você não se dispôs a encarar de verdade. Porém, a escolha de namorar uma mulher que está em desacordo com sua postura e de sacrificar o benefício da monogamia – sendo que você não pode ou não quer oferecer isso – é sua.
A rotina sexual costuma ser uma desculpa para quem não quer se descobrir e desvendar a imensidão do relacionamento e do sexo. De modo geral, somos preguiçosos e não queremos nos colocar de formas diferentes para variar nosso movimento interno. Esperamos que um novo objeto de consumo nos faça olhar a vida de um jeito diferente. Isso pode até ser considerada uma pobreza de perspectiva.
Portanto, K., existe menos um problema moral em si, mas só um desajuste de motivações. Você não é obrigado a se relacionar com uma mulher só e ela não é obrigada a se relacionar com um homem que deseja isso. Então, se a posição de ambos é definitiva, o que se deve sacrificar é o relacionamento em benefício do desejo individual.
Mas será que você realmente quer escolher isso? Se você é do tipo de pessoa que quer tudo e tende a privilegiar só as suas vontades em detrimento dos outros, é provável que não. Sinto dizer, de coração, mas é certo que você ainda vai chorar muito por não fazer suas escolhas.
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