‘Foi tão desumano que dói’, diz vítima de injúria racial em Santarém, PA

Funcionária do Parque da Cidade foi chamada de negra.

Caso ocorreu na noite de quarta-feira (11), durante o Salão do Livro.


Anaíse de Jesus foi vítima de injúria racial na quarta-feira (11) (Foto: Karla Lima/G1)
Anaíse de Jesus foi vítima de injúria racial na quarta-feira (11) (Foto: Karla Lima/G1)
A Polícia Civil de Santarém, oeste do Pará, instaurou inquérito na manhã desta sexta-feira (13) para investigar um caso de injúria racial envolvendo a funcionária da Escola do Parque da Cidade, Anaíse de Jesus, de 54 anos. De acordo com a vítima, o fato ocorreu na quarta-feira (11), em um banheiro do parque. “Não imaginei que ainda existisse criatura assim, desumana. O que essa senhora me fez lá foi tão desumano que dói nas pessoas”.

Então ela disse pra mim: ‘Você tem que limpar, por que você é negra, você é uma preta e tem mais é que limpar’. Cada vez ela gritava mais. Tornei tratá-la bem e perguntei se ela sabia o que estava fazendo. A parte que mais doeu foi quando ela disse: ‘Tu queres que eu te chame de branca, tu é negra!”

Anaíse de Jesus Anaíse prestou depoimento à polícia nesta sexta. Em relato ao G1, ela contou que trabalhava como merendeira há três anos no local, mas naquele dia foi convocada para cuidar da limpeza dos banheiros da escola do parque, quando a autora chegou com a filha de 5 anos. A suspeita não gostou do local e determinou que a filha fizesse as necessidades fisiológicas em pé, no vaso sanitário. Ao ver a situação, a vítima sugeriu a mulher que comprasse um assento para a criança. Segundo Anaíse, a suspeita não gostou da recomendação, então começou a agredi-la com palavras.

Ela conta com detalhes como o fato aconteceu: “Eu falei: ‘porque a senhora não compra um protetor para criança, já que a senhora viaja?’ Então ela disse pra mim: ‘Você tem que limpar, por que você é negra, você é uma preta e tem mais é que limpar’. Cada vez ela gritava mais. Tornei tratá-la bem e perguntei se ela sabia o que estava fazendo. A parte que mais doeu foi quando ela disse: ‘Tu queres que eu te chame de branca, tu é negra!”, recordou a merendeira.

Após o fato, a vítima procurou a coordenação do Salão do Livro para relatar o ocorrido, uma vez que a suspeita era uma das expositoras. Testemunhas que ouviram os gritos no momento da agressão acompanharam Anaíse para confirmar o fato. A vítima chegou a passar mal, pois sofre de hipertensão. Além disso, a suspeita ainda fez ameaças aos colegas de trabalho da merendeira. “Ela disse às pessoas que não contassem nada, se não iria processa-las porque era advogada”.

O caso foi registrado na delegacia de Polícia Civil, no mesmo dia. Anaíse está com o psicológico abalado, não consegue dormir, e afirmou que nunca vai esquecer as palavras ditas pela mulher. “Peço e digo para as pessoas, não faça isso pra ninguém, porque dói. Nunca esperei na minha vida ser tão maltratada como fui por essa senhora”, declarou emocionada.


 Inquérito Policial


O delegado de Polícia Civil da 16º Seccional, Ednaldo Sousa informou que a conduta da suspeita é tipificada como injúria racial. O inquérito policial foi aberto para apuração dos fatos e deve ser concluído em 30 dias. As testemunhas serão ouvidas. “Posteriormente nós iremos encaminhar o procedimento ao judiciário para que a providência em relação ao processo criminal seja feita em relação a suspeita”.
De acordo com delegado, a suspeita que é de Belém não retornou ao estande no Salão do Livro após a situação. Por isso ele acredita que ela tenha retornado a capital do estado. Assim que for localizada deve prestar depoimento em Belém.


Injúria Racial e Racismo

A advogada Leila Paduano explica que existe o racismo e a injúria racial. A injúria é caracterizada quando alguém é ofendido ou discriminado por causa da raça,  religião, etnia, ou nacionalidade. “O racismo é quando há uma coletividade sem identificar uma pessoa, por exemplo, lugares que não empregam judeus, lugares onde negros não são bem-vindos. Chamar uma pessoa de preta fedorenta, ou nordestino, mas de forma discriminatória, isso caracteriza injúria racial”. (Confira o vídeo acima).
Injúria racial está previsto no Código Penal Brasileiro, artigo 140, considerado crime, assim como o racismo.


Movimento Negro em Santarém


A militante do Movimento Negro, em Santarém, Alessandra Caripuna sabe como são os atos de preconceitos. “É um olhar, um xingamento, é achar que somos inferiores as outras pessoas. Isso é histórico, mas em pleno século 21, ainda existem pessoas criminosas. As pessoas que fazem racismo estão cometendo um crime contra a pessoa, contra uma raça”.


Também militante do movimento, a professora de educação infantil, Beatriz Oliveira defende que educação é a base para quebrar esse paradigma do preconceito. Novembro é o mês da Consciência Negra.



FONTE: G1
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