Reação a ataques em Paris deixa clima de guerra declarada


PARIS - A França reage em clima declarado de guerra aos autores do maior atentado terrorista de sua História recente. Em meia hora, grupos supostamente comandados pelos radicais do Estado Islâmico colocaram o país de joelhos: em ataques a oito pontos de Paris, fizeram 129 mortos e 352 feridos, 99 deles em estado grave. Agora, uma verdadeira caça aos autores e seus cúmplices — na França, mas também internacionalmente — está em curso e mobiliza vários outros países, como Bélgica e Alemanha.

— A França está em guerra — declarou solenemente o presidente francês, François Hollande, logo depois dos atentados. — Mas mesmo ferida, a França vai se reerguer. Diante da guerra, um país precisa tomar a ação apropriada.

Durante todo o dia, Hollande multiplicou os contatos com líderes estrangeiros, enquanto seu Conselho de Ministros se reuniu várias vezes para fechar o cerco contra os radicais no interior do país. Mais cedo, os jihadistas reivindicaram, em comunicado, a responsabilidade pelo massacre. Segundo a nota, enviada a vários jornais franceses, os atos terroristas teriam sido uma resposta a “insultos ao profeta Maomé e bombardeios franceses contra alvos do grupo”.

“Um grupo de fiéis soldados do Califado começou estabelecendo alvos na capital da prostituição e do vício, a maior mensageira da cruz na Europa, Paris. Que a França e aqueles que seguem seu caminho saibam que permanecerão entre os alvos do Estado Islâmico”, desafiou a organização extremista. “Paris tremeu sob os pés de seus cruzados, e suas ruas tornaram-se estreitas para eles. O resultado dos ataques é nada menos que 200 cruzados mortos e muitos feridos”.


Um dos terroristas era francês
 
Paris virou um quartel-general de guerra: com todo país em estado de emergência, o Eliseu anunciou a mobilização de 1.500 militares armados até os dentes vigiando as estações de trem e aeroportos, além do reforço dos controles nas fronteiras. Eventos esportivos e artísticos foram suspensos, lojas, escolas, universidades e prédios municipais, fechados.
 
A violência dos ataques levantou inicialmente dúvidas sobre o efeito que isso terá na determinação da França de acompanhar os Estados Unidos na sua campanha implacável contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. A França também está envolvida em várias operações militares de combate ao extremismo islâmico na África. Mas o primeiro-ministro Manuel Valls enterrou as dúvidas numa entrevista à televisão francesa:

— A França irá fundo no combate ao Estado Islâmico — avisou. — Estamos em guerra, e vamos agir. Vamos atingir o inimigo aqui e também na Síria e no Iraque. E vamos responder no mesmo nível. Vamos responder golpe por golpe para destruir o Daesh (sigla do Estado Islâmico, em árabe).

Menos de 24 horas depois dos atentados, elementos novos surgiram nas investigações. Três grupos comandaram os ataques. E um dos sete atacantes da sala de espetáculos Bataclan (onde 89 pessoas morreram) era francês: chamava-se Ismael, tinha 30 anos, nasceu em Courcouronnes, nos subúrbios de Paris e era conhecido pelo serviço de Inteligência francesa desde 2010 e pela Justiça como pequeno delinquente. Fontes da agência AFP disseram que seu pai e irmão foram detidos. As duas casas estão sendo investigadas.

Um passaporte sírio também foi achado junto ao corpo de um dos homens-bomba que detonaram uma das explosões na porta do Stade de France, durante o jogo entre França e Alemanha — o vice-ministro grego de Polícia confirmou que o sírio havia chegado à União Europeia pela Grécia em outubro. Quarto, uma mulher desarmada foi vista acompanhando um dos grupos terroristas.
 


De acordo com o promotor de Paris, François Molins, os grupos se distribuíram para conduzir ataques com kalashnikovs e cintos com explosivos — alguns feitos de Taap, um composto que facilmente passa despercebido por cães farejadores. Pelo menos um deles tinha ingresso para a partida, mas, ao ser revistado, com cerca de 15 minutos de jogo, foi descoberto um colete de explosivos. O atacante, então, detonou o colete, carregado com explosivos e parafusos. Perto dali, cerca de três minutos depois, uma segunda pessoa também se explodiu do lado de fora do estádio. O terceiro suicida detonou explosivos perto de um McDonald’s.

A prioridade das autoridades agora é identificar os corpos, incluindo os dos terroristas, em sua maioria pulverizados. Uma vez completado o processo, será determinado se eles tiveram a ajuda de cúmplices.
— Podemos dizer, neste ponto da investigação, que provavelmente foram três grupos de terroristas coordenados por trás desse feito bárbaro — afirmou Molins.


Aumento do combate interno

Internamente, o combate ao terror vai se intensificar. Quatro mil pessoas estariam fichadas na França como potencialmente perigosas. Valls reconheceu que o risco zero é impossível. David Rigoulet, especialista em Oriente Médio, segue a mesma linha de raciocínio:

— A ameaça é multiforme. Não tem solução milagrosa. Não podemos evitar tudo. Os responsáveis britânicos também reconheceram que o risco zero é impossível, por conta da natureza da ameaça — disse.
Em uma das declarações mais contundentes sobre o massacre, o Papa Francisco comparou os ataques à uma “Terceira Guerra Mundial”. Os atentados de sexta-feira também colocaram os holofotes, novamente, sobre a comunidade muçulmana da França, que teme uma nova onda de islamofobia. E o fato de terem acontecido apenas dez meses depois dos ataques de janeiro contra o semanário satírico “Charlie Hebdo”, também feitos por radicais islâmicos, não ajuda. O movimento islâmico Hamas, no poder na Faixa de Gaza, e a Jihad Islâmica condenaram os atentados — assim como o Hezbollah.

O franco-tunisiano Hassam Vhalghoumi, imã da cidade de Drancy, reagiu praticamente com o mesmo discurso de dez meses atrás:

— A França é forte pela sua História. Não será um bando de bárbaros que vai colocar o país de joelhos. Não! Isso não é a religião. Isso não é humano.

Ele fez um apelo aos muçulmanos a se exprimirem e se manifestarem contra os extremistas. E aos radicais que acreditam que os atacantes são mártires que partirão ao paraíso, ele avisou:
— Não, não! São diabos. Eu prometo: terão o inferno eterno! O salafismo tem que ser combatido, são monstros que destroem a França.



Ele foi duro com a própria comunidade de imãs, ao reconhecer que alguns pregam o ódio.
— É o momento de sancioná-los!

FONTE: O GLOBO
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