Qual é o lance de ser o amante


Já fui chamada de vários codinomes. Para os muito ocupados, eu era constantemente uma “viagem a trabalho” ou uma “reunião de emergência”. Aos fins de semana, eu era um “churrasco” ou “futebol com os amigos”. Uma “cervejinha no boteco”.  Já fui “plantão”, “palestra”, “simpósio”, “almoço de trabalho”, “fisioterapia”, “voltinha”, “os bróder”, “hora extra”, “caminhada”. Em todas essas ocasiões, não importa a alcunha mais convincente, tinha sempre um cara casado me fodendo (literalmente) na cama e fodendo sua esposa (literalmente também, por que não?) sozinha em casa. 



Oi, essa já fui eu
Quem lê esse primeiro parágrafo pode até fazer esforço para me confundir com uma prostituta. Muita gente bem que queria ter o direito de me ofender, xingar, me agredir na rua. Felizmente, eu não preciso de dinheiro para fazer sexo com um homem, faço apenas por diversão e prazer mesmo. Isso acaba com toda a graça de quem gostaria de me chamar de puta, quenga, prostituta, meretriz. Eu só tive a coincidência de gostar de fazer sexo com o mesmo homem que você. Vai me ofender por quê? 

É nesse dilema que me encontrei em diversos episódios sendo a protagonista do pior pesadelo de uma pessoa: a amante. Mas não se engane, meu objetivo não é e nunca foi destruir um lar, uma família, roubar o marido de outra mulher. Apesar de eu não me considerar exatamente uma ameaça para sua família ou casamento, sei que uma pessoa traída, em uma situação delicada dessa, tende a ser agressiva pois normalmente (e erroneamente) direciona seus sentimentos negativos à amante. Por esta ser uma situação que destrói e lacera seu coração, muitas vezes ela sequer tem coragem de direcionar seu ódio à pessoa que tanto ama. 

Sobra pra mim. 

Seria hipócrita da minha parte dizer que é apenas por respeito às mulheres da relação, mas também por amor aos meus dentes da frente e meus ossos inteiros que, desde muito cedo aprendi a ser uma amante extremamente discreta. Low profile é meu sobrenome, tenho pavor de barraco e levar porrada de mulher traída na rua. Vou fazer o quê? bater de volta?

É minha intenção, a partir deste texto, compartilhar algumas histórias reais com vocês e fomentar algumas reflexões em relação à traição e como é o lado do amante. Facilmente consigo relembrar meia dúzia de casos com homens casados que já tive, alguns irrelevantes, outros mais intensos. Se for contar com homens que têm namoradas então, seria impossível contar nos meus dedos das mãos e dos pés. Vou proteger, obviamente, as identidades, nomes e detalhes dos envolvidos, mas cada um deles teve seu impacto e significado na minha jornada. Resolvi, portanto, começar desmistificando o começo de tudo.



Quando a caçadora é a caça

Ninguém gosta de acreditar que, na verdade, muitas vezes quem procura um affair é a própria pessoa casada. Seria muito mais cômodo pensar na imagem da jovem sensual e lasciva que esfrega os seios propositalmente no pobre marido que tenta se esquivar, mas em verdade vos digo: na maioria das vezes, eu fui acossada e perseguida como um coelho por uma raposa (ok, também não sou inocente a esse ponto, mas vamos fingir que sim). 



A clássica figura da amante caçadora que está sempre pronta para o abate de trabalhadores indefesos
Imagino ser mais fácil com a inversão de papéis, uma mulher casada seduzindo um homem, bicho este que que normalmente não é lá muito famoso por resistir às tentações pelo caminho. Vamos conversar sobre quem quer fazer o que e com quem. 

A primeira vez em que eu quase me envolvi com um homem casado, e já explico o porquê foi quase, eu ainda era uma jovem sub-20 universitária que tinha pouco juízo na cabeça e muita cocaína no nariz. Por causa desse mau hábito, fiz amizade com uma galera mais velha que, sabe-se lá por que, gostava muito de mim: advogados, dentistas, médicos, engenheiros, aquele pessoal endinheirado que tomava uísque black label enquanto eu juntava notinhas de dois pra comprar Balalaika com Fanta. 

Durante uma reunião na casa de amigos, havia lá um doutor das tantas (sem detalhes, mas um macho-alfa). Maduro, musculoso e tatuado, interessante e casado com uma loira gostosa e também tatuada. Bem, dificilmente um tipo desses se interessaria por uma gótica gordinha e esquisita do cabelo vermelho. Ledo engano. Regados a uísque e canudo, fomos assistir vídeos pornôs no laptop, na amizade, enquanto a esposa foi dormir e o resto da galera ficou na garagem. Até então, éramos como amiguinhos no recreio da escola, bebendo Yakult de álcool e brincando de quem dava tiros mais rápidos, até que o macho-alfa — não sei se por tesão reprimido ou drogas demais — simplesmente agarrou minha mão entre as dele e começou a fazer carinho. 

Que onda. Correspondi, carinhosa mas assustada. Entretanto, eu sabia que dali não ia passar, a casa estava cheia e a esposa dormindo no quarto ao lado. Lá pelas tantas, ele pegou minha mão e esfregou no pau dele. Murcho. Sei lá pra que, todo mundo sabe que pó broxa. Tirei a mão de lá e falei “aqui não, né”. Ele perguntou se eu queria terminar isso depois, em outro lugar. Trocamos telefones. Grande erro, porque aí o caldo engrossou.

Na época do falecido Orkut eu adicionei essa galera, inclusive a esposa dele. E ela é simplesmente a mulher mais doce do mundo. Me mandou mensagens, se interessou por mim e não pelo meu sexo, e a minha consideração por ela foi maior que toda e qualquer vontade de ficar com o marido. Quando ele me ligou, eu bufei mentalmente e enrolei. Literalmente, a esposa não foi traída porque a aspirante a amante não quis. Me pergunto quantos cônjuges falham em pular a cerca simplesmente porque o potencial amante dispensa. Certamente encontra-se outro(a) disposto(a). Acabou que, da esposa eu fiquei amiga e nunca contei o que aconteceu, achei desnecessário causar tumulto por causa de um carinho na mão e uma alisada breve num pau mirrado. 

Essa foi a primeira vez que eu quase fui amante, e não tinha nem metade do sex appeal que tenho hoje em dia. Acredito que ele agarrou a minha mão e queria transar comigo não é porque eu fosse especial, era qualquer outra mulher nova que estava no grupo, pois eu era a única solteira ali. Então, amigos, chegamos numa lição muito importante: se uma pessoa casada está disposta a ter um relacionamento fora do casamento, não importa com quem, ela vai dar um jeito de consumar o fato. 

Não estou falando de pessoas que se apaixonam ou se deparam com sentimentos incontroláveis fora do casamento, e sim de putaria mesmo. Nessa hora, deve-se rever esse casamento, essa monogamia, se vale a pena como está. Não adianta fuçar celular, não adianta proibir Facebook, não adianta virar uma pessoa neurótica atrás dos passos dele(a). 



Quem quer trair sempre vai arrumar um jeito. Lembra aquele primeiro parágrafo desse texto? Já teve homem com a cabeça entre as minhas pernas com o telefone na mão, falando “tô num churrasco, depois eu te ligo”, rindo e falando “mas que picanha” e eu dando graças à Lucífer que eu não sou o ser mais cretino desse mundo. Tinha outro que não tinha Facebook porque a esposa brigava por ciúmes e sequer anotava meu número no celular, mas sabia a hora que eu saía do trabalho e me esperava no carro quando conseguia fugir. Eu era “a sinuca”. E não adiantava a mulher vigiar o celular, o e-mail, o carro, nada. Tava lá eu transando com o marido dela de qualquer jeito. Ele tava a fim, então dava o jeito dele. 

Divórcio, perdão, relacionamento aberto, talvez você encontre a felicidade pulando a cerca também e encontrem, ambos, a tranquilidade em um casamento sem monogamia. Eu, particularmente, acho esse papo de fidelidade tão ortodoxo. Quem sabe vira assunto de outro artigo?


Você não respeita o casamento alheio?



Como alguém atenta contra uma aura tão fofa como esta?
Oras, e quem sou eu para cuidar do casamento dos outros, não é verdade? A frágil e delicada bolha que me protege desse universo de ser o vetor de mentiras a uma outra mulher é que eu simplesmente não conheço as ditas-cujas, e isso eu levo muito em consideração. Não conheço a história desse casal, não conheço os termos desse relacionamento, não sei o que sucede entre os dois. Em suma e em verdade: não é da minha conta. Por outro lado, quando eu conheço a mulher e ela passa a estar na minha esfera de respeito e consideração, aí sim é da minha conta. Passa a ser problema meu. Sabe aquela história brega do Pequeno Príncipe, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”? É mais ou menos isso.  No caso supracitado, por exemplo, eu única e exclusivamente não transei com o marido porque fiz amizade com a mulher dele. Ter um affair com namorado/marido de uma amiga minha, então é uma situação que sequer passa na minha cabeça. Me faz lembrar que eu, como “traidora”, só traí uma vez um namoradinho, apenas porque eu estava realmente apaixonada por outra pessoa, então realmente eu não entendo como os maridos têm os colhões de fazer isso. Mas, novamente: não é da minha conta. É o pensamento que muitas vezes me salva.

Uma vez tive que trabalhar com um gringo pica-grossa de outra empresa. Além de poderoso, era charmoso, inteligente, sagaz, sarcástico e engraçado. Pena que era casado, mas eu estava ali a negócios mesmo, então não me preocupei muito. Mas eu percebi – eu sempre percebo – a tensão sexual quando vem pincelando disfarçadamente os comentários de “nossa, mas você é tão jovem, seu inglês é tão perfeito, você tem só essa idade mesmo?, você não tem filhos e nem é casada, como se é tão bonita? Deve ter muitos namorados então”. Sou uma excelente profissional, mas também não sou idiota. Deixo corda o suficiente para ele se interessar, mas não o suficiente para atrapalhar o meu trabalho. Em certo ponto, começou a me chamar para jantar. A princípio não aceitei, porque era meu trabalho e certamente meu chefe cortaria meu pescocinho. Mas almoço eu aceitei tranquilamente, afinal era de dia e dava pra conversar um pouco fora da empresa. Virou rotina.



Almoço secreto no restaurante secreto com a amante secreta
Lá pelo décimo convite (sem exagero), eu aceitei o jantar. O cara era pica-grossa da empresa e cocota não lhe faltava, mas eu acho que ele continuou me convidando simplesmente porque insisti no não. No encontro, eu sabia abertamente que ele era casado então foi bem amigável. Foi quando ele me disse que entrou no meu Facebook pela conta de um amigo (!!) e me contou de várias fotos que ele já viu, inclusive as de lingerie. Já sabia os filmes que eu gostava, as bandas que eu ouvia (!!!), enfim. Eu não sabia se eu pensava “que homem creepy” ou “eu não acredito que esse homem quer me comer a esse ponto”. Lá pelas tantas, ele veio me contar que a esposa dele – nos EUA – estava grávida de novo. O gringo tentava fazer piada, mas eu via um tom de angústia, o sarcasmo de sempre parecia mais uma sentença infeliz, pois eis que o esquema do trabalho dele era ficar um mês no Brasil e um mês nos EUA. Creio eu que, da mesma forma que ele estava se esbaldando aqui no Brasil, possivelmente ela estava se esbaldando nos EUA – ou era o que ele também pensava, porque uma notícia de “minha esposa está grávida de novo, e estou torcendo para que eu seja o pai” não é exatamente o que você conta para sua hopefully transa durante um jantar que é uma pré-preliminar sexual e esperando que isso esquente o clima. Deixei meu lado de bitch de lado e consolei o rapaz do melhor jeito que eu pude. 

Eu ia falar o quê? 

“Esperemos pra ver se nasce com a tua cara ou se nasce um negão, um china...?". Mezzo desejei que a esposa dele também pulasse a cerca no casamento, mezzo que o bebê fosse dele mesmo. A lição, portanto, desse episódio é: eu não apenas respeito como também desejo que, no fundo, esses cônjuges sejam tratados como reis e rainhas pelos seus esposos, ou também pagam da mesma moeda. Ele pode ser o pica-grossa das galáxias mas, na hora que cai a ficha que a mulher pode também fazer (não apenas igual mas pior que ele), parece que a corda aperta no pescoço, né?

Para os curiosos de plantão, depois do jantar veio uma conta absurdamente cara por causa de um vinho ridículo (de maravilhosamente delicioso  e exorbitante de caro) que o gringo escolheu para impressionar. Mal sabem esses homens poderosos que basta um cafuné e um arrocha bem dado na minha cintura pra me derreter. Olhei minha carteira, que paga bem as minhas contas mas é normalmente magrela como uma modelo de passarela em Paris e falei como uma lady “nem fodendo que vou pagar esse vinho que tu escolheu. Eu pago os pratos, você paga as bebidas”, ele riu da minha cara e disse “me dá aqui essa conta, você vai pagar é outra coisa”. Tudo bem, trocar jantares e vinho caro por um boquete e algumas horas de sexo selvagem com um homem forte, sexy, sensual e que pela primeira vez eu transei em inglês na minha vida. Me senti tipo a Silvia Saint ou a Traci Lords (sou oldschool mesmo). Da próxima vez quero tentar em francês. 


Conclusão

 



Ter sido o terceiro vértice em algumas ocasiões não torna nada especial na minha personalidade ou comportamento. Amante é simplesmente uma pessoa normal, mas o acaso fez com que os caminhos se cruzassem com uma outra pessoa que já era casada, que se entendem e, por motivos diversos, eles encontram alguma coisa que não estava em seu cônjuge. O relacionamento se desenvolve também por causa da abertura do amante. Não estou me eximindo da minha parte da culpabilidade dizendo “o casado é ele, quem tem marido/esposa é ele, tomara que leve um chifre ele”. Lavar as mãos é coisa de Pilatos e não combina com quem deita na cama, rola no gozo do parceiro alheio e depois finge que é inocente na história. Entretanto, numa história de três (às vezes até quatro, ou cinco. Já vivi até em seis) vértices, não existe preto e branco, nem culpados ou inocentes. A consciência e juízo de cada um são diferentes. 

Aqui é uma piscina de paradoxo: ao mesmo tempo em que acredito que relacionamentos baseados na monogamia e fidelidade são ortodoxos na sociedade atualmente, se é para construir um namoro ou casamento em tais parâmetros, eu jamais teria coragem de mentir ou enganar meu cônjuge e traí-lo para transar com outrem. Ou se faz as coisas direito ou não faz. Se é para transar com outro, que seja para o direito de todos. Se não é pra não transar com ninguém, que todos sejam fiéis. Jogo limpo, sempre. 

Nas poucas vezes em que eu namorei sério, as regras eram simples: se é pra me trair, a) use camisinha e b) não me deixa saber. Nunca. Acredite, é melhor para você.

Não consegui relatar todas as lições que aprendi sobre relacionamentos sendo uma amante, mas  sem exagero – seria o suficiente para um livro tamanho enciclopédia Barsa. Por enquanto, já comecei com algumas básicas com dois casos nem um pouco relevantes pra mim, um sexo que não foi consumado e outro que foi bom, mas ok, acabou por ali mesmo. 

Da próxima vez a gente cava mais, mete mais fundo e com mais força.


PAPO DE HOMEM
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